segunda-feira, 6 de agosto de 2012

ARTIGO - ILHA DO FOGO: MINHA SEGUNDA CASA

Em que lugar foram pensadas estratégias pelo exército para acolher a comunidade frequentadora da Ilha do Fogo? Enquanto se desenrolam as matérias jornalísticas acerca da ocupação da Ilha do Fogo pelo Exército Brasileiro-72º Batalhão de Infantaria Motorizado sediado em Petrolina,vai se traçando um outro sentimento distinto daquele que não aparece nas notícias e decisões institucionais. Este sentimento é, em particular, uma experiência de pertencimento do lugar vivenciada dentro de uma trajetória de vida, minha, e de tantos outros Amigos da Ilha do Fogo que ali se encontram diariamente, há aproximadamente três décadas. Busca-se nesses encontros além das práticas desportistas à articulação de uma rede de relações sociais e estratégias pela revitalização do rio, a defesa de suas águas e do ambiente. O percurso da nossa existência na Ilha do Fogo pôde expressar, através de vários encontros os mais profundos sentimentos de bem estar, cuidados e afetos que foram se intensificando à dinâmica da vida dos Amigos da Ilha - banhados pelas águas do Rio São Francisco. Todos esses motivos reúnem-se ao se materializarem as ações educativas que foram realizadas há aproximadamente 30 anos, o que nos credencia para ter a ilha do fogo como nossa segunda casa. O pertencimento da Ilha do Fogo fez-se das inúmeras práticas desportistas, como natação, peteca e ações de preservação e pôde traçar os fios de uma relação de cuidado e amizade constituídos pelo amor a natureza e ao Rio São Francisco. A explosão da notícia de ocupação pelo exército e as afirmações do Comandante James Corlet dos Santos-emque não vai permitir o acesso de civis a nenhum local da ilha e que a mesma será transformada em Centro de Treinamento Militar, da forma como estão sendo feitas, escapam indagações a propósito da expulsão das comunidades banhistas de Juazeiro e Petrolina. Em que as diferenças de tratamento voltadas para as operações militares, a política das estratégias militares do exército seriam mais reveladoras na ocupação da “casa dos outros” do que a complexidade da existência das pessoas que frequentam a ilha? Que intenções surgem nesse processo de territorialização? Indagações semelhantes surgem para problematizar a ocupação já realizada pelo exercito do outro da ilha- base fluvial- remetendo, todavia, ao desenrolar do sentimento de violação que nos arremessam para fora de um lugar que é nosso para abrigar espaços físicos, administrado sem a presença de ummovimento vivo, sustentados a base do cadeado. Vale refletir que escolha de frequentar Ilha do Fogo surgiu da espontaneidade e do exercício livre de cidadania. Diferentemente de uma condição imposta institucionalmente, pela justiça federal de Pernambuco, e que certamente, está desconsiderando a implicação social e o dissabor que esta apropriação vai causar a população frequentadora, que tem a ilha como um lugar de fácil acesso ao lazer e grandes encontros. Ao lado de todos os sentimentos elencados vamos nos remeter a Geraldo Azevedo quando canta: “Meu barco é meu coração que vai sem mágoas, nas águas desta paixão até o cais” ... Portanto queremos reafirmar que temos um compromisso histórico com a vida do rio da integração nacional e que foram construídos ao longo dos anos, numa distribuição equitativa de afetos e cuidados, e são percorridos pela singularidade dos Amigos que não pedem nada, a não ser viver a intimidade da Ilha do Fogo com o acesso livre a toda comunidade, embunitecendo cada vez mais a luxuosa paisagem viva da ilha, sem imposições e operações militares. Lorena de Araujo Melo 18/06/2012 FONTE: http://www.geraldojose.com.br

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